Memory

Em minha fantasia mães só morreriam quando suas filhas fossem bem velhinhas, preparadas e fortes para poder suportar a dor de tal separação. Minha mãe, ao contrário de minha fantasia, morreu aos 68 anos de um súbito infarto e eu tinha 39 anos e não estava nem um pouco pronta para suportar a dor de tal separação. Eu senti que, com essa perda, foi-se embora o sonho e muito de mim mesma.

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Cresci vendo-a costurar e, ao que me parecia, sua máquina de costura era seu objeto de maior intimidade. Depois de sua morte, meu pai deu-a de presente para mim e, ao abrir suas gavetas, seus compartimentos, entre alegria e dor intensa, pude me deparar com suas coisas, seus objetos, suas coisas de maior importância, fragmentos de sua memória.

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Remexendo naqueles objetos, foram me vindo imagens, idéias, pensamentos, cobertores, saquinhos, pontos, costura… O processo foi muito doloroso, às vezes parecia que não iria conseguir, mas a cada ponto dado era como que costurando minhas feridas e, aos poucos, fui cozendo ponto a ponto meu luto, minha orfandade, minha solidão.

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Hoje me sinto mais próxima de mim mesma do que antes de iniciar este processo. E este trabalho é um modo de olhar, sentir a vida e ocupar meu lugar no mundo.

Rita de Almeida
outono/inverno de 1996
outono/inverno de 2008