O Esfaqueado

O Esfaqueado trata-se de um trabalho feito depois da morte de meu único irmão. Depois de seis dias desaparecido, seu corpo foi encontrado boiando nas águas de um rio, esfaqueado e acorrentado. Até hoje pouco se sabe sobre o crime… sequestro… assalto… enfim, pistas muito vagas. Meu pai e eu vivíamos num estado de suspensão e pesadelo. Esta situação que nos foi imposta gerava dores terríveis por todo o meu corpo, uma angústia descabida. Em meio ao desespero, pude perceber que meus gemidos de dor só poderiam ser ouvidos pela única voz que tenho: a linguagem plástica.

esfaqueado4   esfaqueado3   esfaqueado2   esfaqueado1

Trata-se de uma série de dez telas que foram esfaqueadas e costuradas posteriormente com pontos de sutura. A costura, ao que me parece, seria uma forma de reparação, cada ponto dado não era somente a tentativa de recuperar a identidade de meu irmão, mas, sobretudo recuperar a minha própria identidade – a sutura servia para dar pontos em minha alma partida, eram pontos dados para recuperar minha própria vida. Fazendo isto, fui me aliviando, superando e aos poucos dando um novo sentido à minha existência.

Penso que a função do artista nada mais é do que a de dar forma às dores, aflições, perdas, alegrias, enfim, às emoções humanas, segundo as suas possibilidades. Neste momento esta forma é a tradução que me é possível.

Rita de Almeida
nov94/ mar95 / jan96 / maio 2008

Meu pai, Paulo Mariano de Almeida, faleceu em 1 de agosto de 2007 com essas sensações ainda muito presentes em sua alma porque nada mais foi apurado sobre o crime até os dias de hoje.